SENTADO AO LUME - 3 - CRÓNICA SEMANAL

A BANDA DE ALÉM


“Um ribeirinho engraçado
Divide o povo e faz bem.
Quem vai de um para o outro lado
Diz: vou à banda d’além”.


Assim reza um dos versos de uma bela canção interpretada pelos Amigos de Lagos da Beira – Grupo Musical e herdada do antigo Grupo Instrução e Recreio. A banda de cá é onde cada um vive e a banda de além é a outra banda. A fronteira é a Fonte de São João, onde passa o tal ribeiro. De onde vem esta divisão de Lagos da Beira em “bandas”? Não é o minúsculo ribeiro que faz essa divisão. Consta-se que em tempos, a rivalidade era tão forte que chegava a haver arraiais de pancadaria à moda antiga. A rivalidade reascendeu-se nos finais dos anos 80 com festas dos santos populares a acontecer no mesmo dia nas duas “bandas”. Claro que rapidamente as coisas serenaram, visto que o nosso povo é por natureza ordeiro e trabalhador. A minha teoria e note-se que é só uma teoria, leva-nos para o tempo dos mouros. Sabemos que a Igreja Matriz foi construída no Século XV sobre as ruínas de um templo. Que templo seria esse? Pela distância ao centro do povoado, podemos deferir que seria uma construção moçárabe. Os mouros toleravam o cristianismo, mas ordenavam que eles praticassem os seus cultos afastados da povoação. É natural que estes primeiros cristãos preferissem viver, junto ao seu local de culto, na banda de além. Assim teríamos a aldeia dividida em mouros e cristãos separados por um ribeiro que deveria ter maior caudal nessa época. Com a reconquista cristã, desapareceram os mouros, mas manteve-se o sentimento de divisão que foi passando de geração em geração até já ninguém saber o porquê. Se falarmos com pessoas mais idosas, todas confirmam a velha divisão, mas ninguém tem uma explicação. É assim porque foi sempre assim. Tal como disse, é apenas uma teoria. Quem tiver outra ideia ou explicação pode contactar. O mesmo acontece sobre outros assuntos.  
COBERTURA DE POÇA ONDE PASSA O RIBEIRO QUE DIVIDE A ALDEIA